No segundo mês que não deu certo, voltei ao consultório no primeiro dia da menstruação, para iniciar mais um mês de tratamento. Além de medicamento via oral, já estava tomando uma injeção na barriga. Ao chegar ao consultório, minha médica começou a me contar que na Europa é muito comum as pessoas doarem e receberem doações de óvulos e que estava vindo ao Brasil uma italiana que queria fazer isso aqui. Ela procurava por alguém com o meu biótipo, cor de pele, olhos etc. e minha médica estava me "escolhendo" para isto. Eu doaria os meus óvulos para ela tentar engravidar e, em troca, ela pagaria todo o meu tratamento FIV com uma parte dos meus óvulos. Eu teria que ovular muito em uma única tentativa para dividir os óvulos meio a meio com ela. Eu estava sozinha e a médica foi me falando tudo isso em uma consulta, eu teria que decidir naquela hora, pois teria que começar o tratamento no mesmo dia. E eu nem sabia como seria esse tratamento! Liguei dali mesmo para meu marido e contei a história: "E aí, o que você acha? Temos que decidir AGORA!" Ele disse: "Faz então!"
Não sabíamos pelo que iríamos passar, eu não fazia idéia, mas concordei. Todo o tratamento seria pago pela italiana. Na hora a médica já me deu um dos medicamentos e começou a me explicar como seria o tratamento. Me assustei! Injeções na barriga? ja tinha tomado uma no mês anterior, mas essa agulha, diariamente, no mesmo horário... ai, Meu D’us! E detalhe: aplicadas pelo meu marido! Quando ele chegou em casa, conversamos e expliquei como deveria ser feito. Não sei quem sentiu mais medo, eu ou ele. Às vezes eram duas ou três aplicações na barriga e todo dia ia ao consultório fazer ultrassom para acompanhar a ovulação. No meio do tratamento já estava difícil, pois a barriga estava toda roxa, dolorida e inchada. Mas meu marido me surpreendeu, foi maravilhoso, carinhoso, paciente e muito, muito corajoso!
Eu estava em um período de muito trabalho, no final do ano letivo, e ainda com viagem marcada para o exterior e nem conseguia pensar em fazer malas. Quase no fim do tratamento ainda tive que tomar mais um remédio, outra agulhada para não ovular antes da hora e não perder tudo o que fizemos até então. Passados alguns dias, tomei outra agulhada para ovular e fui para a clínica retirar os óvulos. Nesse dia nem fui trabalhar, pois tomei anestesia e é normal ter sangramento. A expectativa era saber quantos iriam virar embriões. Consegui oito, então foram quatro para mim e quatro para a italiana. Dois não se formaram, mas dois sim! Alguns dias depois, voltamos à clinica para "colocar " os dois embriões. Fizemos tudo e minha médica disse: "Daqui a meia hora pode levantar e ir trabalhar", e eu respondi: "O quê? Nunca mais eu levanto daqui!” E o medo de caírem? Fiquei lá deitada um tempão e... fui trabalhar.
Minha médica já havia deixado comigo o pedido do Beta HCG. Esperei 11 eternos dias e então, no dia D, fiz o exame. Esperei meu marido chegar em casa e ligarmos para o laboratório juntos, estava super, hiper, mega, ultra nervosa e ansiosa. A atendente simplesmente me deu um número que eu nunca tinha ouvido antes, pois os resultados dos exames que eu fazia sempre davam 0 ou menor que 1, e nesse deram três dígitos! Meu marido disse que eu estava grávida mas eu não acreditava, então, claro, liguei para minha médica, que imediatamente me disse "Você tá gravidíssima!" Não podia acreditar, era tudo o que eu mais queria! E pelos números, poderiam ser gêmeos.
Agora era hora de entrar de férias, arrumar as malas e ir ver o Mickey! Detalhe: NINGUÉM DA NOSSA FAMÍLIA SABIA O QUE TÍNHAMOS FEITO! Viajamos por 15 dias sem contar nada para ninguém. Foi surreal, pois nunca tinha feito nada sem dividir com alguém da minha família e foi uma grande decisão e muito importante. Tive muito medo de não conseguir depois de tanto esforço, dores e desconfortos, mas posso dizer, VALEU MUITO A PENA! Faria TUDO DE NOVO para ter as minhas pequenas aqui comigo, que são tudo pra mim.
Fomos viajar com menos de um mês de gravidez e sem saber o sexo ou se eram um ou dois bebês. Queria tanto, mas tanto ser mãe de meninas, o desejo foi tão grande que se realizou. Ganhei duas princesas! Sem saber, fui louca e fiz enxoval de rosa e lilás. Instinto materno, não adianta ir contra! Tomei muito cuidado na viagem com os brinquedos, tive muito sono, mas foi ótimo. E o medo da volta, de contar para toda a família sobre isso? Foi o que fizemos, chegamos, meus pais estavam na minha casa à meia-noite, esperando pela gente. Não podia nem abrir as malas antes de contar, pois só tinha roupa de bebê. Minha mãe não acreditou, perguntou se fiz um teste de farmácia na viagem, e aí começamos a história. Mesmo assim ela não acreditou, pediu o resultado do Beta e aí começou a cair a ficha. Meu pai nem reagiu! No dia seguinte contamos para os pais do meu marido.
Poucos dias depois, tive um sangramento ao urinar, gritei para minha mãe imediatamente e ficamos desesperados. Que medo! Liguei para a clínica, minha médica estava viajando e o outro médico perguntou se eu já tinha feito ultrassom. Disse que não e então marcamos o primeiro. Meu marido teve que ir trabalhar e fui com meus pais. Na hora da ultra, fui atendida por uma moça que disse: “Está tudo bem, um neném aqui... e outro aqui!” Fiquei paralisada e minha mãe começou a esmagar meus dedos e chorar. Eu não podia acreditar, comecei a rir!
Eu tinha que falar para o meu marido que estava tudo bem por causa do sangramento, mas não podia contar pelo telefone que estava esperando gêmeos. Segurei até a noite, quando ele chegou. Ele ficou paralisado, não acreditou! Tive que chamar minha mãe para contar. Levou alguns meses após o nascimento delas para ele acreditar que era pai de gêmeas. Acho que ele estava no automático, e eu também.
Na gravidez, fiquei um mês e pouco de repouso e só depois voltei a trabalhar. Trabalhei por seis meses e fiquei em casa um mês antes delas nascerem. Era difícil comer, dormir, tive mal estar quase todo dia, muita azia... Entrei no oitavo mês e as meninas se mexiam muito, ou pelo menos tentavam... eu sou pequena e o espaço na barriga era menor ainda. De repente, em um sábado à tarde, comecei a sentir minha barriga diferente, meio dura. A médica me passou remédios para ajudar a não ter contração e duas injeções de corticóide para desenvolver o pulmão das meninas. Passei o final de semana INTEIRO acordada tendo contrações. E na segunda-feira, dia 07/07/2008, eu já não conseguia mais me mexer e nem sair da cama. Ligamos para minha médica e ela disse para irmos até o consultório. Chegando lá, deitei para ser examinada e, em segundos, ela disse: "Direto para o hospital! Você está com 3 cm de dilatação!" As meninas estavam nascendo! Eu estava nervosa, tremendo... Mas graças a D’us, deu tudo certo. Hanna nasceu às 21:48, com 1,850 kg e 41 cm, e Sofia às 21:50, com 1,570 kg e 38,5 cm. Elas foram para a UTI Neonatal, mas passavam bem e respiravam sozinhas.
Foi um período difícil, cansativo, precisava de forças que não sabia mais de onde tirar, mas consegui e elas mais ainda! Foram 28 dias de UTI e pude levar as duas ao mesmo tempo para casa. Que alegria! Mas dois dias depois, a Sofia teve um problema em duas mamadas seguidas, ela meio que “apagava” durante a mamada, ficava roxa e de olhos fechados, um desespero total. Ela voltou a ser internada, passou por uma transfusão de sangue e depois disso se recuperou. Levei alguns dias para visitá-la, pois estava com a Hanna em casa amamentando e, ao mesmo tempo, com medo de voltar lá. Não sabia lidar com essa situação e me sentia culpada ao mesmo tempo. Oito dias depois, a trouxemos de volta para casa. Aí comemoramos mais uma vez, um renascimento. Enfim, hoje as duas estão com três anos, são maravilhosas, uma alegria enorme para nós!
Ah, esqueci de dizer. A italiana que me deu o tratamento infelizmente não engravidou e eu não pude conhecê-la nem para agradecer os dois presentes que ganhei, que são minhas filhas.



