 Os genes estão por trás de quase todas as nossas características, do jeito de cruzar os braços à predisposiçao para doenças graves. Saiba o que passa de pai – e, principalmente, de mãe – para filho Já reparou na forma como você cruza os braços? Então, cruze-os e veja qual ficou por cima, se o direito ou o esquerdo. Agora peça que seu filho faça o mesmo. Se ficou diferente, pode apostar que quem passou essa característica à criança não foi você, mas o pai (ou a mãe). É isso mesmo: até o modo como cruzamos os braços é hereditário.
Mais ainda, é uma das chamadas heranças genéticas simples, aquelas determinadas por um gene com duas possibilidades: a versão dominante (o “Azão”, A) e a recessiva (o “azinho”, a). É como dobrar a língua em formato de ′u′: se seu filho não faz isso, herdou só genes recessivos (aa); já se faz, recebeu um ou dois genes dominantes (pode ser ′Aa′ ou ′AA′). Já o furinho no queixo, que muita gente afirma ser mais preciso que teste de paternidade (se o filho tem, o pai tem de ter) não é tão óbvio assim: mesmo um filho de pai e mãe que não o apresente pode vir a tê-lo.
Quanto mais deciframos o DNA humano, mais descobrimos que há um fundo genético para praticamente tudo o que somos: características físicas, doenças e problemas de saúde físicos e psicológicos e até habilidades para aprender idiomas, tocar instrumentos ou lidar com números. Claro que precisamos reforçar que o ambiente e a maneira como nos relacionamos com nosso filho têm um papel importante. Sem levar isso em consideração, corremos o risco de, em casos de adoção, atribuirmos qualquer ′problema′ do filho, como ataques de birra que toda criança tem e que um bebê gerado com seu próprio espermatozóide ou óvulo também teria, à herança genética dos pais biológicos.
Genes x ambiente
A professora de inglês Christina Borten, mãe de Theo e grávida do segundo bebê, conta que ficou surpresa ao conhecer seu meio-irmão por parte de pai. “Achei curioso que ele, que sempre viveu em um ambiente ligado à música popular, tenha se interessado em aprender o instrumento de que nosso pai mais entende, o violino. Isso sem ter convivido com ele”, conta.
O irmão de Christina podia mesmo nunca ter pensado em aprender violino, já que, em muitos casos, como dissemos, o ambiente altera nossas tendências genéticas.
A especialista em biologia molecular e genética humana Solange Bento Farah, filha de Jean e Diva e autora do livro DNA, Segredos e Mistérios (Editora Sarvier), explica de forma musical: “O DNA é como uma partitura, e nós somos os músicos que definiremos como ela será tocada, dependendo dos nossos instrumentos (como decidiremos viver, nossas escolhas) e da acústica da sala de concerto (ambiente).”
>>Para entender melhor - Como as características são passadas de pais para filhos
- Quando o aconselhamento genético pode ser útil
- Que heranças genéticas são passadas de mãe pra filho.
*Leia a íntegra desta reportagem na revista Pais e Filhos.
PEQUENO DICIONÁRIO GENÉTICO
Doença hereditária: é tudo aquilo que passa de pai para filho no nascimento. Pode ter a ver com genética ou não. Por exemplo: o HIV passado da mãe para o bebê é hereditário, mas não genético.
Doença congênita: é tudo aquilo com que nascemos. Uma infecção com que o bebê venha a nascer é congênita, mas não genética.
Doença genética: é o que tem relação com alguma informação contida em um ou mais genes, os “tijolinhos” que formam nosso código genético, o DNA.
Recessivo: precisa estar combinado a outro gene igual ou estar sozinho para se manifestar. Com um diferente, ele se anula. Se a combinação for ′Aa′, a característica ou doença inscrita no ′a′ não se manifesta. Se for ′aa′, aparece.
Dominante: basta estar no DNA para se manifestar.
FOI MINHA MÃE QUEM ME PASSOU
A mãe é, literalmente, o X de muitas questões genéticas. Se os filhos, principalmente homens, apresentam algum problema inscrito nos genes, muitas vezes o herdaram da mãe. A explicação é relativamente simples: a mulher tem dois cromossomos sexuais X e pode carregar em um deles os genes para muitas doenças recessivas sem apresentar nenhum sintoma – levando uma vida normal. Já com os pais, que têm um cromossomo X e outro Y, quando o tal do X vem com defeito, ele dá o ar dá graça. Mas e o Y, não pode ser defeituoso?
Poder, até pode, mas, como ele é um só, as doenças sempre se manifestariam. É bem provável que a natureza e sua seleção natural tenham se encarregado de não deixá-los seguir adiante. Confira aqui algumas das doenças mais comuns ligadas ao cromossomo X.
Mãe para filho: hemofilia e variações de distrofia muscular (a mãe pode passar os genes defeituosos para as filhas, mas elas serão assintomáticas) e daltonismo.
Mãe para filha: daltonismo (se a mãe for portadora e o pai for daltônico), gene para hemofilia (geralmente, se o pai é hemofílico e a mãe, portadora, os embriões femininos não sobrevivem) e distrofia muscular (ela terá o problema se o pai também tiver o problema). por CINTIA MARCUCCI, FILHA DE MARIZA E EMILIANO
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